Véspera

Pensa numa pessoa com a incrível habilidade de contar histórias com personagens complexos e cheios de contradições. Estamos falando da mineira Carla Madeira, que domina a arte como poucos. 

No seu maravilhoso “Véspera”, ela reforça ainda mais a admiração que comecei a cultivar depois de “Tudo é rio”, resenhado aqui.

A história começa com Vedina, uma executiva que começa o seu dia de trabalho nervosa por conta de seu casamento em frangalhos. O filho de cinco anos quebra a cristaleira e derrama a gota que faltava para transbordar a tsunami que se formava dentro dela. Vedina coloca o menino no carro de qualquer jeito, sem se preocupar se ele se machucou, e, no caminho, num ímpeto de irritação no meio de uma discussão com o hiperativo garoto, abre a porta do carro e o coloca para fora. No meio de uma avenida de mão única. Um menino de cinco anos. 

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Klara e o Sol

O Nobel de Literatura Kazuo Ishiguro me impressionou desde “The Buried Giant”; quando ele lançou “Klara and the Sun”, há exatamente há um ano, passou a frequentar minha lista de desejos (que só aumenta todo dia). Pois semana passada vi uma pessoa vendendo um usado por €5 (na livraria custa €20) e não perdi a chance!

Um livro pra ficar na memória entre os mais queridos…

Klara é uma inteligência artificial instalada em um robô humanoide chamado AF (deduzo que sejam as iniciais de “Artificial Friend”) e foi concebida para ser “amiga” de crianças e pré-adolescentes. Cada unidade desenvolve uma personalidade própria, resultado do algoritmo e do repertório construído pelas experiências individuais.

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O mergulho

Eis que trago aqui um livrinho elegante e bem resumido que tem insights bem legais. Nada de novo em se tratando do Seth Godin no seu “The dip: A little book that teaches you when to quit (and when to stick)” (tradução livre: “O mergulho: um pequeno livro que ensina você quando desistir (e quando persistir)”).

Todo mundo tem momentos em que pensa em desistir de tudo e largar mão de alguma coisa que está muito mais complicada do que a gente pensou quando se meteu nela. Mas, geralmente para leitores desse tipo de literatura (a de negócios), desistir não é uma opção.

Godin cita Vince Lombardi, um guru inspiracional, que prega “Desistentes nunca vencem e vencedores nunca desistem”. Como diz o autor, esse é um péssimo conselho. Vencedores desistem o tempo todo. A questão é saber a hora certa de desistir; e do quê.

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A mulher do tigre

Quanta surpresa num livro de bolso desgastado e cheio de orelhas! Achei essa joia num sebo por €1 e me chamou atenção porque dizia que ganhou um prêmio de ficção em 2011 no Reino Unido. Lá fui eu mergulhar nas páginas do “The tiger’s wife”, de Téa Obreht. 

A autora nasceu na Sérvia em 1985 e fugiu com a mãe e avós durante a guerra, em 1990. Eles se refugiaram no Chipre, depois no Egito e, em 1997, os avós retornaram a Belgrado. Mas ela e a mãe decidiram viver nos EUA, onde estão até hoje. 

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Quando a outra também é você

Uma das coisas que acho mais luxuosas em Berlim é ter uma livraria inteira especializada só em ficção científica. Pois foi lá que encontrei esse tesouro: “The Echo Wife” (deixei no original porque a tradução seria algo como  “a esposa eco”, o que não faz muito sentido), da genial Sarah Gailey.

Eu não conhecia ainda essa já premiada autora, e “The Echo Wife” é sua obra mais recente, publicada no ano passado.

Tudo começa com Evelyn Caldwell, uma brilhante geneticista, ganhando o maior prêmio de sua área por conta de suas pesquisas com clones. Ela recém se separou do marido e, apesar de feliz com o reconhecimento, está com o coração aos pedaços. 

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O avesso da pele

A gente sabe que ser negro neste mundo não é uma tarefa para amadores. Mas no Brasil, as coisas, que nunca foram fáceis, têm piorado muito nos anos recentes. Além da matança institucionalizada pela própria polícia quando invade comunidades e mata até crianças pequenas, como aconteceu no ano passado, tem também os “cidadãos de bem” atuando de forma proativa para o extermínio. 

Há alguns dias o congolês de apenas 24 anos, Moïse Kabagambe, foi espancado até a morte por ter reclamado do não pagamento do seu salário no kioske de praia onde trabalhou, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. A barbárie aconteceu em plena luz do dia. Os suspeitos presos dizem que estão de consciência tranquila, pois não tiveram a intenção de matar (imagina se tivessem). 

Poucos dias depois, num condomínio em São Gonçalo, no mesmo Rio de Janeiro, Durval Teófilo Filho, 38 anos, foi assassinado a tiros por seu próprio vizinho ao ser confundido com um assaltante (tinha esquecido a chave e esperava a mulher abrir o portão para que ele pudesse entrar). 

Adivinha a cor dos dois?

São dois casos que tomaram as páginas dos jornais, mas é certo que há muitos outros que passam batido e a gente nem fica sabendo.

Pois foi nesse clima que devorei o excelente “O avesso da pele”, de Jeferson Tenório, que conta a história da família de um rapaz negro no final da adolescência, logo que começa a cursar a faculdade de arquitetura, o Pedro.

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Cientificamente comprovado

Ok, exceto uma pessoa que tenha participado de um projeto de pesquisa ou tenha um título acadêmico de mestrado ou doutorado, ninguém é obrigado a saber. Então vamos lá:

O termo “cientificamente comprovado” é uma aberração. Se alguém taca esse palavreado numa frase, pode significar uma dessas três coisas:

1) A pessoa não tem ideia do que está falando

2) A pessoa quer enganar você

3) Ambas as anteriores.

Ué, mas como assim?

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Ansiedade doxástica

Tem um perfil no Instagram que eu adoro, apesar de segui-lo com um certo desconforto. 

É de um professor de história da arte chamado Tio Virso. O moço tem um conhecimento admirável, mas não é só isso: ele trata a arte no seu sentido mais amplo. Eu resumiria (não sei se corretamente) a visão dele como sendo arte toda manifestação de uma ideia, sentimento ou emoção humana. O resultado é que ele não apenas fala da história da arte branca europeia tradicional, como todo mundo conhece, mas também de outros continentes e perspectivas culturais. 

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